terça-feira, 2 de março de 2010

A face escondida

Na luta que vamos travando contra este estado de degradação instalado na sociedade Portuguesa, há quem se continue a destacar pelo esforço e clarividência com que vai denunciando muitas das indignidades que vão sendo cometidas. Leia-se a excelente síntese analítica feita por José Muacho;

Quem é Cavaco Silva?
Em Julho de 2004 Santana Lopes toma posse como Primeiro-ministro.
Em Setembro de 2004 o alegado engenheiro Sócrates é eleito presidente do PS.
Em Outubro de 2004 na sequência das chamadas “trapalhadas” do governo presidido por Santana Lopes, Cavaco publica no Expresso o famoso artigo “A Má Moeda Expulsa a Boa Moeda” e com ele “autoriza”, incentiva, Sampaio a dissolver a Assembleia da República, o que vem a acontecer em 22 de Dezembro.
Como consequência, em Março de 2005, o ainda não admirável líder, torna-se Primeiro-ministro de Portugal.
Em finais de 2005 Cavaco Silva candidata-se a Presidente da República.
Contra ele, o PS candidata Mário Soares e, aparentemente à revelia do partido, Manuel Alegre candidata-se também.
Dada a divisão dos votos à esquerda, Cavaco ganha facilmente; em Janeiro de 2006 é eleito PR.
Durante quatro anos Cavaco, o tal que por causa de “trapalhadas” sancionou a demissão de Santana Lopes, assobia para o lado perante suspeitas de corrupção, compadrios, negociatas, perseguições a jornalistas, afundamento da educação e saúde, desbaratar de dinheiros públicos, etc., etc.
Só reagiu quando afrontado com o Estatuto dos Açores mas acaba por meter o rabo entre as pernas e não levar o braço-de-ferro até às últimas consequências; terá tido medo de quê?
Na véspera do início da última campanha eleitoral o Público, citando fontes próximas do PR, denuncia alegadas escutas à Presidência da República. Na altura Cavaco diz não ter comentários a fazer porque não quer interferir.
Manuela Ferreira Leite aproveita a deixa e reforça o slogan da “asfixia democrática”.
Em plena campanha, o Diário de Notícias dá à estampa o famoso e-mail interno do Público e, baseado no mesmo, sugere que as escutas eram afinal uma encomenda da PR para lançar suspeições sobre o amado líder.
Mais uma vez Cavaco reitera a sua intenção de não comentar escudando-se na sua obrigação de não interferência e promete investigações rigorosas para depois do dia 27; no entanto, quatro dias depois, demite das funções de assessor de imprensa Fernando Lima, o alegado autor da encomenda do” Caso das Escutas”, seu colaborador fiel há mais de 25 anos.
Este seu acto parece corroborar a denúncia do DN e permite que Augusto Santos Silva apareça, em directo, nos telejornais da noite afirmando:
“Mais uma vez se demonstrou serem falsas as alegações feitas pela actual liderança do PSD de que existiria hoje em Portugal qualquer clima de condicionamento dos órgãos de Comunicação Social da responsabilidade do Governo do PS ou do PS e lamento que esta campanha eleitoral esteja a ser feita de casos de incidentes de tentativa de aproveitamento político.”
Esta lavagem de mãos que atira com a água suja para cima de um amigo e colaborador de longa data é então o quê?
É de admitir que Fernando Lima tivesse agido sem o conhecimento dele? E, a tê-lo feito, porque não foi demitido logo que a notícia apareceu no Público?
Mas admitindo que hesitou, então qual a razão porque não adiou a demissão do seu assessor para depois do dia 27 evitando o quase esvaziamento da campanha de MFL?
Como explicar o comportamento de Cavaco?
E agora, com as revelações das ingerências e tentativas de ingerência nos média vindas a lume com a publicação das escutas do processo Face Oculta, onde está Cavaco Silva?
É que este caso é mais um em cima de muitos outros (As casinhas da Guarda, Falsificação das fichas da AR, Licenciatura na Independente, Compras de andares, Escrituras desaparecidas, Reforma da mãe, Cova da Beira, Freeport, Sobreiros de Setúbal, Assalto ao BCP, TVI, Mário Crespo, Público, Saída de Marcelo da RTP) que têm, directa ou indirectamente, sempre um nome associado; qualquer pedra, mais ou menos suja que se levante, esse nome aparece quase sempre.
Agora já não é só um Primeiro-ministro que está em causa; PGR e STJ também estão; comunicados e contra comunicados, declarações avulsas, o atirar da bola entre PGR e STJ, violações do segredo justiça boas e más, mãos pelos pés e pés pelas mãos, insinuações de encobrimento... e se a palavra mentiroso já era usual quando o PM era referido, agora, a ela também não ficam imunes os nomes do Procurador Geral da República ou o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
E neste caos, onde está Cavaco Silva?
É esta a boa moeda dele? Ou será que o Polvo, com tantos braços laçados e entrelaçados, lá, bem no meio, tem algum de que nem sequer suspeitamos?
Segundo Almeida Santos, “todos os casos de justiça em que o nome do PM esteve envolvido deram em nada e este em nada vai dar”. A sua convicção pareceu-me demasiado profunda para que tenha por base somente a fé.

Complementando a síntese do Zé Muacho, poderemos perguntar se foi para isto que elegemos este Presidente da Republica.
Onde é que estão os Portugueses inconformados com a situação que se está a viver?

3 comentários:

JotaB disse...

Nunca votei nem nunca votarei no senhor silva de Poço de Boliqueime.
Falta-lhe cultura, educação e estatura moral, para o exercício das funções de Presidente da República.
Como Português, sinto-me envergonhado por ter este cavalheiro como Chefe de Estado.
É inqualificável a sua atitude perante o comportamento deste Primeiro-Ministro e restantes governantes, bem como perante o descrédito da Justiça e dos seus agentes.
A sua total insensibilidade para com a fome que chega, cada vez, a mais casas dos Portugueses é gritante.
Precisamos de um Chefe de Estado à altura do momento que atravessamos.

João disse...

Crónica semanal de Henrique Neto, publicada no Jornal de Leiria de hoje:

Crónicas sobre o futuro a
O segredo de Justiça

Nunca fui adepto do
secretismo, seja nos
negócios seja, em
particular, na política.
Todavia compreendo
que em certas profissões,
particularmente nas profissões
que lidam com a vida
dos outros, o segredo possa ser
necessário. É o caso da justiça.
Todavia, já não acredito que o
segredo de justiça seja justificado
quando o que está em causa
são bens públicos, como a
liberdade, a transparência da
vida pública e, mais complexo,
os actos públicos ou privados
das pessoas que enveredaram
por uma carreira politica. Não
vou ao ponto de, como nos Estados
Unidos, defender o conhecimento
público da vida familiar,
sexual e religiosa dos políticos,
mas defendo que em tudo
o resto, como as ideias expressas,
as decisões tomadas e os
actos praticados, devem ser
escrutinados, porque isso é relevante
para o julgamento dos
eleitores. Além de que de uma
ou de outra forma, os actos dos
políticos afectam a comunidade
e porque o secretismo na
vida politica, ensina-nos a experiência,
conduz frequentemente
à mentira e à defesa de interesses
ilegítimos, quando não
ao crime.
São estas as razões porque
no caso “Face Oculta” não há
fundamento político e ético para
a manutenção do segredo de
justiça e, por isso, o jornal Sol,
ao publicar as escutas, prestou
um relevante serviço ao País.
Caso contrário, os portugueses
permaneceriam enganados quanto
ao que se passa em vastas
áreas da vida nacional, tais
como: promiscuidade entre o
poder politico e o poder económico;
intervenção ilegítima
do poder politico nos critérios
de gestão de empresas privadas,
(casos do BCP, da PT e da
Tagus Park ); actividades concertadas
de grupos inorgânicos,
tipo máfia, que comprometem
os partidos políticos em acções
potencialmente ilegais e, em
qualquer caso, contrárias à ética
e ao funcionamento democrático
das instituições; prossecução
de objectivos à margem
dos órgãos legítimos das
empresas e do poder politico,
para mais através de acções,
por alguma razão, conduzidas
no maior secretismo; pressões,
expressas ou implícitas, do poder
económico e do poder político
sobre os jornalistas, para evitar
a publicação de notícias consideradas
inconvenientes; actividade
legislativa favorável a
grupos de interesses (caso das
farmácias ) e de pressão sobre
o poder judicial (caso Lopes da
Mota, entre outros menos conhecidos);
financiamento dos partidos
em espécie, através de um
sistema de vasos comunicantes,
envolvendo agentes do poder
politico infiltrados no poder
económico.
(continua...)

João disse...

Não desconheço que existem
várias opiniões, que respeito,
que defendem a inviolabilidade
do segredo de justiça, ou que
preconizam a abolição das escutas,
como António Barreto, mas
considero que nas actuais condições
da nossa vida politica,
sem grande controlo democrático,
a transparência tornou-se
num bem supremo, que deve
ser prosseguido, se possível a
bem, mas se necessário a mal.
Isto é, através de escutas e com
custos possíveis para a vida privada
de algumas pessoas. Mas,
como dizia a minha avó, quem
não é para elas não se mete
nelas.
Aliás, estou de acordo com
aqueles que nos últimos tempos
chamaram a atenção para
o facto da evocação do segredo
de justiça ser o veículo privilegiado
para evitar o esclarecimento
dos factos tornados
públicos pelas escutas. Ou, como
dito por um advogado, serve
para que os envolvidos se escondam
atrás do segredo de justiça,
para omitir da opinião pública
e da Assembleia da República
o que realmente se passou,
recusando-se a explicar os
objectivos e as razões das conversas
que foram gravadas.
Fazem-no com particular desfaçatez,
utilizando o secretismo,
profissional ou judicial,
para evitar o que normalmente
pareceria simples e útil para
os próprios: a transparência e
a defesa do bom nome. O qual,
aliás, todos reivindicam com
notável insistência, incluindo
o Primeiro Ministro, mas sempre
deixando de fora as explicações
necessárias. O que, diga-se,
a continuar, torna cada vez
mais improvável a demonstração
da sua inocência.

HENRIQUE NETO
empresário
netohenrique8@gmail.com